quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Praça da Liberdade

Ainda sentado no banco da Praça da Liberdade vejo a Igreja. São cinco horas da tarde e cheguei cedo demais para assitir aula. Vejo um bar à minha esquerda. Muitas pessoas estão lá, nessa quarta-feira de março. Daqui a duas semanas faço um ano de namoro.

Caminho em direção à banca de revista ao lado do bar. Em poucos segundos vou comprar o primeiro maço de cigarros da minha vida. Tenho algum dinheiro no bolso, bastante para tomar o porre que não premeditei.

Peço uma cerveja. O garçon olha para minhas mãos vê o maço de cigarros, olha para o meu rosto e acredita que sou menor de idade. Acabo de completar dezoito anos. Quando ele voltar com a cerveja o telefone tocará. Eu atendo o celular. É ela. Digo que estou esperando para a aula começar, e que vou tomar uma cerveja enquanto isso.

À minha frente aparece a primeira estrela. Vejo os carros apressados cortarem a avenida com os faróis acesos. Depois de tomar a terceira cerveja e zonzo pela fumaça dos cigarros que fumo sem parar eu descubro um show aberto ao público que começará em poucos minutos a três quarteirões de onde estou.

Ainda tenho o sonho de ser compositor. A banda começa a tocar e eu fico imaginando letras de músicas que nunca serão cantadas, senão por mim, na velhice, talvez. Enquanto assisto ao show e fumo cigarros vejo uma menina de cabelos loiros, sentada do meu lado, e que já me olhava. Me pede um cigarro e eu dou. Pede um copo da minha cerveja e eu dou. Quando me pede um beijo eu reluto.

Olhou nos meus olhos e deve ter pensado que eu era gay. Sabe que é bonita e que é sensual. Ainda vamos nos encontrar muitas vezes. Quando o show termina e eu já estou mais tonto que o usual volto ao bar, esperar meus colegas de classe para tomar mais cervejas depois da aula. Não percebo que ela me segue e senta à mesa comigo.

- O que foi, não está afim? Eu digo - Não.

Nós não trocaremos muitas frases até entrarmos no táxi.

Enquanto está sobre mim eu tenho medo. Não sei quem é, e nunca a vi antes. Não acreditava nessas histórias que ouvia sobre uma mulher se dispor a deitar-se com um cara logo no primeiro momento. Estou desconfiado.

Arranca a minha blusa, a minha calça. Não uso cuecas. A moça se antecipa com os lábios. A voracidade é incrivel, mas os dentes machucam um pouco. Num mesmo movimento ela põe o preservativo. A habilidade me espanta. Eu não consigo me controlar e então partimos para o combate. Acredito ainda hoje que ela esperava retribuição. Mas só farei sexo oral muito tempo depois, com uma amiga de classe, que por sinal estava naqueles dias sangrentos.

Ainda esperniou bastante, quis ser minha, jurou paixão imediata. Emudeci. Não consegui conversar, nem puxar assunto. Eu estava frio, bacalhau da Noruega.

Foi uma das piores noites que tive. Tenho remorsos. Não estávamos na mesma sintonia. E eu, marinheiro de segunda viajem, não gostei do meu desempenho.

Soube que ela contou para as amigas, e a repercussão foi favorável. Recebi umas ligações, mas ou não atendia ou desligava o celular em seguida.

Meses depois quando eu a reencontrei estava numa outra situação difícil. Segurando uma amiga desmaiada, às portas de um bar por nome Bohemia. Lugar que nunca consegui frequentar.

Ela esperava mais de mim.




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Antes de Maria eu tinha segredos.

Antes de Maria

No banco de praça onde estou sentado um coração flexado se mostra a minha frente, na frondosa árvore que me traz sombra até a altura dos ombros. Acabo de passar no vestibular e penso na primeira vez que estive em uma mulher. Foi há pouco mais de seis meses, no banheiro do colégio, à noite, depois de uma aula de História.

É minha namorada, e acredito que a ame, embora os hormônios estejam me dissuadindo. Aquela noite tinhamos medo de sermos pegos pelo bedel. Ele está a quatro metros de mim, o pátio vazio, ela escondida no banheiro feminino e eu tenho de passar por um estreito corredor para alcançá-la no esconderijo que combinamos. Temos dinheiro para motel, mas não temos tempo de esperar.

- A bomba me fez mal! Digo sem perceber que não estou teatralizando. Corro em direção ao banheiro e ele não percebe que entrei na cabine feminina. Aterrorizada e sem expressão de desejo eu a apanho. Está de calças jeans, assim como eu. O beijo assustado e comedido, não podemos fazer barulho.

Abro meu zíper, e abro o dela, apóio a perna esquerda sobre o vaso sanitário e me inclino para que haja maior contato entre as pernas, enquanto sinto a calça ceder até o chão. Está só de calcinha e blusa. Num movimento rápido eu ponho o preservativo. Ouço o bedel entrar no banheiro. Ele não me viu passar de volta, certamente já vasculhou o banheiro masculino e desconfia que eu entrei no lugar errado. Sinto as unhas dela cravarem na minha cintura. Vamos ser pegos se ele perceber nossa respiração ofegante.

Ele sai do banheiro, foi embora, certamente. - Não, não, temos que sair daqui. Ela me diz. Não cedo. Antes que ela espere qualquer réplica eu replico com a primeira estocada da minha vida. Muda de cor e eu sinto pela primeira vez uma mulher. Eu, macho. Ela, fêmea.

Estou em transe, sinto meu corpo se deslocar todo à cintura. Começamos a forçar-nos um contra o outro, movimentando os quadrís. Senti que aquela dor que minha namorada reclamava foi embora quando eu comecei a falar suaves palavrões ao ouvido. Ela estremece. Eu estremeço.

Não conseguimos chegar ao clímax. Olho para o chão e vejo sangue. Muito sangue. Estamos ensanguentados e por sorte a calça dela estava estendida sobre a caixa de água do vaso sanitário. Enquanto ela tenta se limpar eu percebo que minha calça jeans está ensopada e não fosse clara demais passaria despercebido.

Ela se vestiu e saiu do banheiro. Eu disfarcei o quanto pude. Mas à saída o bedel me percebeu. Duas horas depois, já tenho chegado em casa nós nos falamos ao telefone. Depois namoraríamos por mais dois anos, e terminaríamos com a minha quase marca registrada: por telefone.


Não fosse eu, à época, o melhor aluno da escola, estaria em maus bocados. O bedel nunca tocou no assunto, nunca levou a questão a diretoria.


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Antes de Maria eu tinha segredos.